quarta-feira, 9 de setembro de 2009

"Eu acho que não é aqui não, moço"!







Era uma corrida para Jacarepaguá como qualquer outra. Os passageiros eram uma mulher de meia idade com um menino de aproximadamente nove anos, a quem se referia como neto. Estavam chegando de Recife e era a primeira vez que pisavam no solo carioca e estavam visivelmente encantados com a cidade maravilhosa. Olhavam pela janela do carro e deslumbravam-se com cada estrada e com algumas paisagens, afirmando que jamais havia visto algo parecido. O percurso durou cerca de quarenta e cinco minutos, pois o trânsito estava incrivelmente bom para um dia de sexta-feira e ela parecia bastante empolgada de poder rever sua irmã mais velha, com a qual somente mantinha contato por telefone, desde que viera morar no Rio, há cinco anos. Sua irmã se chamava Cleuza e precisou se mudar para o Rio quando seu marido fora transferido para a filial carioca da empresa em que trabalhava. Disse também que morava num belo apartamento em frente à praia de boa viagem, herança de seu falecido marido, ex-funcionário da Marinha do Brasil. Levava uma vida razoavelmente boa, e uma situação financeira tranquila. O falecido capitão de fragatas, Sr. Adelino, deixara uma boa pensão e com ela ajudava seu único filho, na criação e educação do único neto, Raphael.
Alguns poucos minutos de silêncio e o garoto soltou um barulho esquisito, era o estouro do chiclete que mascava e a senhora o advertiu rapidamente. Voltou a falar de sua irmã, Cleuza e disse que ela havia lhe enviado uma carta onde relatava que morava em uma bela casa de autos e baixos, muito confortável em uma vizinhança razoável e a senhora imaginou que ela estivesse sendo modesta, pois acreditava que sua irmã havia enricado e estaria sim morando em uma bela mansão, a danada.
Mais alguns minutos e peguei a primeira saída da linha amarela e como não conhecia bem a localização descrita, nem mesmo a rua que a passageira informou, resolvi descer em direção ao bairro chamado Pechincha e procurar informação mais adiante. Paramos em um posto de gasolina e o frentista informou que a tal rua ficava um pouco distante Dalí e que deveríamos nos informar mais a frente. Parei ao lado de um jornaleiro que informou que o tal endereço não era próximo do comércio e sim bastante afastado e em uma localização não muito agradável. Seguimos então o conselho do homem e viramos à esquerda a fim de encontrar a via de mão exata para o bairro da Taquara. Lá chegando, mais uma informação aqui e outra ali e nos deparamos com um beco sem saída, mais precisamente uma ruela no pé de uma favela com muitas casas simples. A rua não possuía calçamento e havia um pequeno esgoto que escorria por ela, até encontrar um bueiro por onde desembocava. Imediatamente a mulher afirmou ter certeza de que não estávamos no endereço certo, pois aquele lugar era feio e mal cheiroso e pediu ao neto que pegasse o celular para telefonar para a Cleuza e esclarecer a situação e o menino disse-lhe não ter crédito disponível no telefone e precisariam ligar à cobrar, o que foi em vão, pois a pessoa do outro lado da linha não aceitou a ligação à cobrar e desligou antes que a mesma pudesse completar. Diante daquela constrangedora cena, eu ofereci o meu celular para que ela então pudesse fazer a tal ligação normalmente e ela, um pouco constrangida por não ter crédito, já que afirmou ter uma situação financeira excelente, aceitou minha oferta e discou o número de sua irmã. Uma vizinha atendeu dizendo que o telefone não pertencia a sua parenta e sim era um número para recados. Ela imediatamente correu para chamar a Cleuza, que finalmente deu as dicas para chegarem até o destino. Mas a senhora estava assustada e não queria acreditar no que seus olhos estavam enxergando. Jamais poderia imaginar que sua irmã estivesse em uma situação tão complicada como aquela. A casa que correspondia ao endereço informado era um casebre de dois andares, porém, extremamente humilde e realmente ficava no tal beco em que havíamos entrado. E ela então disse: “moço, pelo amor de Deus, me tira desse lugar, me leva de volta pro aeroporto, eu não posso dormir aqui e não esperava que fosse assim tão ruim, pois minha irmã sempre disse que se tratava de um excelente lugar para viver e definitivamente não estou nem um pouco satisfeita com o que está acontecendo, estou verdadeiramente chocada”.
Então eu lhe pedi que se acalmasse e tentasse primeiro conversar com sua irmã e entrar em um acordo, antes de retornar ao aeroporto e ela aceitou. Desceu do carro, abraçou fortemente a irmã que a aguardava na porta da tal casa ainda em tijolos, sem qualquer pintura e Cleuza a convenceu de entrar e ficar. Nesse momento eu senti um enorme alívio, pois a dona estava mesmo desesperada com toda aquela situação. Retirei as malas do carro e voltei para o centro da cidade, imaginando como ela teria se entendido com a irmã após aquele equivocado episódio.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Respeito é bom e eu gosto






Estávamos num papo interessante sobre futebol, para variar, quando recebi um chamado do quiosque o aeroporto Tom Jobim, antigo Galeão. Passava das onze da manhã e o sol derretia-me os sapatos. Entrei no carro e segui para lá e com o trânsito fluindo bem, em poucos minutos eu estava lá para atender ao chamado urgente. Para minha surpresa tratava-se de um ator muito famoso, preferido da mulherada, mas que por questões de ética e processo judicial, prefiro não divulgar tal nome. Entrou no carro e sentou-se atrás do banco do motorista e uma mulher que julgo ser sua assessora sentou-se ao seu lado. Na frente um senhor de meia idade, que pela conversa entre os três era advogado do tal artista e estavam retornando de uma audiência em São Paulo. Também não sei do que se tratava o tal processo, pois eles não entraram em detalhes a respeito e eu não sou o tipo do taxista que fica prestando atenção em demasia no que os passageiros conversam, é deseducado, anti-profissional e não faz o meu tipo.
O fato é que tive que perguntar por duas vezes qual era o destino, até que a mulher se prontificou a responder-me, pedindo que eu seguisse adiante e aguardasse novas instruções. Ela voltou-se ao ilustre artista de televisão, bastante conhecido nas novelas e questionou-o se deveriam passar no centro da cidade antes de seguirem para o bairro da Urca. E o soberbo do homem pediu-lhe que avisasse ao senhor motorista que iria direto para casa, não dirigindo qualquer palavra direta a quem lhe conduzia ao seu destino.
O sujeito podia ser bonitão, famoso, rico e até talentoso, mas o que eu não entendia era o porquê de tanta falta de educação de sua parte em demonstrar tanta antipatia por minha pessoa, já que nem o conhecia, a não ser pela televisão, onde ele aparece produzido e em falas extremamente educadas, bastante diferente do cara que estava sentado no banco traseiro do meu taxi. E está muito longe de ser.
A mulher novamente advertiu-o da necessidade de passarem no centro e ele lhe deu um corte, dando a entender que seria melhor conversar sobre tais assuntos em casa.

Um ambiente hostil pairava dentro do veículo durante todo o percurso e eu sentia vontade de chegar logo onde pretendiam descer para me ver livre de tanta soberba e indiferença que aquele sujeito transmitia. Jamais poderia imaginar que aquele cara fosse tão hostil e esnobe. Mal podia esperar para chegar em casa e contar para a Dilma, minha mulher. Ela ficaria de queixo caído e talvez nem acreditasse nesse episódio.
Chegamos na altura de botafogo e entramos para o acesso à Urca e Praia Vermelha, quando o sujeito virou-se para a mulher e pediu-lhe que avisasse ao motorista, como se eu estivesse a léguas de distância dele, que eu permanecesse à esquerda, próximo após o Instituto Benjamim Constant, pois precisava comprar jornais e a tal mulher balançou a cabeça afirmativamente e antes que pudesse repetir toda a frase dita pelo tal ator, eu adiantei-me e disse-lhe: “...senhorita, por favor, avise ao senhor aí atrás que nem que ele fosse o papa eu pararia na esquerda para não ficar sujeito a uma multa de trânsito e que se ele fosse um pouco menos deseducado, eu até retornaria ao jornaleiro, que aliás se chama Valdomiro e por acaso é muito meu amigo, e compraria o tal jornal, mas infelizmente, tudo era bem diferente e por gentileza, procurem descer com certa agilidade quando chegarmos ao destino, pois tenho que retornar ao ponto rapidamente para atender a um outro cliente, esse para Duque de Caxias, lugar onde eu como o melhor angu à baiana que já provei em toda a minha vida”.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

O susto


Para uma tarde de terça-feira, até que o movimento não estava ruim. Por volta do horário do almoço peguei uma corrida para as paineiras, um grupo de quatro turistas e às duas já estava apanhando um casal de turistas de Goiás na porta do Copacabana Palace. Conversavam pouco, mas pude entender que eram de pessoas inteligentes e felizes. Fazendeiros do interior de Goiânia que visitavam o Rio pela primeira vez a convite de um amigo que morava no Rio. Pretendiam visitar o Cristo e depois o pão de açúcar, tirar boas fotografias e mostrá-las a uma tal de Elô, que tinha pavor de vir para o Rio, por conta dos noticiários de violência da cidade maravilhosa. O primeiro passeio foi tranquilo, a não ser pelo calor que sentiam e a quantidade de água que necessitavam ingerir com frequência, me obrigando a parar para que pudessem se abastecer. Bastante compreensível, afinal, o sol estava escaldante para um mês não tão quente como costuma ser o mês de maio, aqui no Rio. Descemos do cristo e passando pelo bairro de Santa Tereza eles ficaram maravilhados e decidiram parar para um café num bar logo na descida. Tiraram mais algumas fotos e partimos para Uca, onde deviam embarcar no famoso bondinho de acesso ao pão de açúcar, O famoso ponto turístico. Perguntaram-me educadamente se eu não gostaria de acompanhá-los, mas eu não aceitei e coloquei-me à disposição para guardá-los no carro. Algum tempo depois, talvez horas, eles retornaram completamente maravilhados e com as maçãs do rosto bastante rosadas e pediram-me que os levasse de volta para o hotel. Estavam aparentemente exaustos e tiraram os calçados dos pés para descansá-los. Fizeram um comentário positivo a respeito da cidade, pois até agora não havia sentido qualquer hostilidade ou ameaça de violência como noticiam as emissoras de TV e estavam realmente surpresos com ao Rio, a não ser pelo fato de que em poucos minutos mudariam de idéia com o maior susto de suas vidas. Era uma gritaria, na altura da Rua Princesa Isabel, gritos e discussões, alguém terrivelmente transtornado parecia obrigar-nos a parar e entregar tudo, mas tentava abaixar-me para procurar algo no fundo do carro. Talvez estivesse procurando algo, uma arma e a tensão só aumentava. O casal entreolhava-se e arregalavam os olhos, abaixavam-se e perguntavam o que estava acontecendo e com muito medo e pavor transpiravam e tremiam e eu não conseguia explicar ou pedir para que ficassem calmos, pois tudo estava sob controle. A mulher forçou a maçaneta da porta traseira e abriu com toda a força que tinha, colocando os bofes e todo o almoço para fora, coitada, estava extremamente nervosa com toda aquela situação e finalmente consegui alcançar o dito cujo. Foi questão de segundos, eu acho, mas parecia uma eternidade. Estava tocando sem parar e lembrei-me que precisava trocar o toque do meu celular e diante daquela terrível cena eu disse: "calma Dona, é só o toque do meu telefone. Um amigo me enviou na brincadeira e eu baixei, mas fica tranquila que assim que der pra estacionar eu troco..." e pensei: “Maldita a hora que eu resolvi salvar o tal toque, eles podiam ter aberto a porta do carro e se jogado de tanto desespero.”