quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O falecido

O despertador alarmou estrondosamente alto em meus ouvidos e eu resolvi ficar um pouco mais na cama quentinha antes de encarar a chuva que caía.Tudo parecia diferente naquela manhã e lembrei-me que o Nelson chegaria de viagem no dia seguinte e ainda não havia preparado o empadão de camarão que prometera. Meu marido gostava de comer seu prato preferido toda vez que voltava de Muriaé, a cidade do interior de Minas, onde seus pais residiam. Dona Aurora já não cozinhava mais e os velhinhos dependiam de uma filha que cuidava dela e do seu Ary e essa era a razão pela qual Nelson retornava da visita dos pais extremamente faminto. Pretendia tomar um banho relaxante antes de sair para o trabalho, mas quando peguei uma toalha limpa no armário, mal pude completar o trajeto até o corredor do banheiro, o telefone tocou. Era uma mulher desesperada que mal conseguia respirar entre uma palavra distorcida e outra. Tentei acalmá-la para que conseguisse falar e me fazer compreender, mas ela parecia estar com o coração na boca e comecei a ouvir gritos e muita choradeira do outro lado da linha. Aquilo me deixou muito tensa e não conseguia decifrar o que aquela mulher transtornada precisa me relatar. Devia ser realmente algo muito grave, pois o choro que ouvia ao fundo da ligação estava me assustando e eu só pensava nos meus sogros e também em uma tia minha, irmã de meu pai que residia em Maceió e há anos não ouvia falar dela. Por um momento temi que pudesse ser com Nelson, mas não havia de ser com ele. E a mulher estava ficando cada vez mais nervosa, até que meus sentidos se perderam e minha cabeça rodou. Cessaram as gritarias e eu mais nada ouvia, além do nome de meu marido. Sim, ela conseguiu dizer que havia algo de errado com Nelson, e esse era o nome da pessoa que precisava de ajuda do outro lado da linha. Tinha dificuldades naquele momento para encontrar lápis e papel para anotar o endereço que a tal moça tentava me descrever, mas todas as canetas e todos os papeis resolveram desaparecer e levou alguns minutos até que eu encontrasse um pedaço de jornal velho. E após anotar o endereço que ficava nas proximidades da Lapa, Centro da Cidade, apanhei um taxi na esquina da Avenida Suburbana e segui ao encontro de Nelson que estava em alguma enrascada e eu tentava controlar minha mente que não parava de buscar uma resposta para o fato de Nelson ter retornado de Muriaé antes do combinado e o que fazia na Lapa tão cedo. Eu só não imaginava o que me aguardava. O motorista estava guiando muito devagar e pedi que ele se apressasse, pois meu marido estava em apuros e ele perguntou se estava me levando a alguma delegacia. Eu apenas respondi que não sabia, só possuía nas mãos um endereço até então desconhecido, na Lapa. O trajeto levou cerca de quarenta minutos por conta do trânsito de horário de rush, quando as pessoas estão indo para o trabalho, escola. Veículos e mais veículos seguindo de um lado para o outro, ônibus em demasia e até taxistas excessivamente lotados. Mas meus pensamentos estavam exasperadamente voltados para o Nelson. E me perguntava o que teria acontecido.

A cena era deprimente, patética. Alguns vizinhos com a mão no queixo, outros debruçados em seus muros ou preparando-se para assistir aquele espetáculo que mais parecia uma sessão circense de quinta. E eu doida pra descer o braço naquela magricela com que vestia ridículo micro shorts, agarrado ao seu ganha-pão, as nádegas. A mulher mais velha veio em minha direção e disse que estava em sua residência quando a Dalvirene começou a gritar dentro de casa, acordando toda a vizinhança. O homem não agüentou a pressão. Uma mulher jovem, vinte e cinco anos, muito bonita e fogosa que costumava encontra-se com o homem maduro, meia idade, sempre por pouco tempo. A não ser que de tempos em tempos ele podia ficar quase um mês em sua companhia, quando devia estar em outro Estado zelando por seus velhos e esquecidos pais. E eu ali, servindo de banquete para toda aquela gente curiosa que queria ver de perto a jovem mulher levar uma surra da coroa que viera buscar seu defunto. Marido o qual mentia que estava em Minas Gerais, quando na verdade estava era se deleitando com a amante. Não fosse pela assinatura que era necessária, afinal a cônjuge era eu, pelo menos formalmente. Era anunciado o fim e eu segui para o necrotério, a fim de liberar o atestado de óbito do Nelson, sem saber como dar a notícia para os velhinhos que fazia tempo não via o filho mais novo.

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