quarta-feira, 26 de agosto de 2009

No banco de traz





Era tarde de sábado e eu já me preparava para ir para casa, afinal, havia trabalhado duro durante toda a semana e precisava de um descanso, como qualquer filho de Deus. Com o calor que fazia no mês de novembro nessa cidade maravilhosa, parei na esquina da sorveteria do seu Heitor e comprei uma big taça de sorvete de flocos com calda de chocolate, o meu preferido. Saboreei com toda a felicidade de uma criança quando saboreia o seu doce predileto. Paguei pela refrescante taça e pedi uma água para cortar um pouco do açúcar ingerido e retornei ao carro, que havia deixado com os vidros abertos, devido ao calor extremo, estacionado há uns cinco metros da sorveteria. Ao aproximar-me de veículo, percebi que havia algo de estranho por perto, a começar pelo mau cheiro que pairava perto da porta do taxi e também pelo vidro da porta traseira, que eu não me recordava e ter aberto. Comecei a ficar preocupado e a cada passo que eu dava, olhava ao redor para certificar-me de que não se tratava de alguma brincadeira, pegadinha, ou coisa parecida. Ainda um pouco afastado, estiquei o olhar para dentro do veículo, a procura de algum rastro ou quem sabe algum animal que pudesse ter pulado pela janela. Mais um passo e minha nossa! Surpreendi-me com aquela estranha cena. Jamais teria acreditado se não tivesse visto com meus próprios olhos. E cheguei a duvidar do que acabava de presenciar. Um homem estranho, na verdade um morador de rua. Um mendigo. Sei lá. Sei apenas que naquele momento eu me assustei com aquela cena, que até poderia se cômica, se não fosse trágica. E já começava a ouvir meus companheiros lá do ponto, tirando o maior sarro da minha cara, quando vissem um cliente entrando no meu taxi, torcendo ou abanando o nariz, como quem quer insinuar um fétido odor. E pus-me a procurar por um guarda que pudesse me auxiliar na retirada de tal mendigo de dentro do meu carro, mas a tentativa foi em vão. Logo num sábado à tarde, seria a coisa mais difícil do mundo encontrar ajuda de um policial, pelo menos naquela circunstância que, no mínimo era ridícula. Não havia o que fazer, senão começar a acordar o tal sujeito que dormia no banco traseiro e comecei a tarefa de acordá-lo. Tentativa essa inútil. O cara sequer mexia as pálpebras e estava abraçado com uma garrafa de cachaça. Pensei em abrir a porta de trás e tentar retirá-lo, mas não sabia se aguentaria o cheiro do dorminhoco, que além de falta de banho, misturava-se a um forte cheiro de cachaça e comecei a ter colapso mental só de pensar em como eu faria para sumir com aquele cheiro de dentro do carro, a tempo de voltar ao trabalho sem que os passageiros notassem o tal infortúnio. Sorte a minha, pois enquanto eu me encorajava para interromper seu descanso cheiroso, o cara abriu a porta do carro e, do nada, saiu disparado dando algumas goladas em sua inseparável bebida, o qual não desgrudou sequer por um segundo. Melhor assim, mas eu que não me atreveria a comentar aquele lamentável incidente com a galera lá da cooperativa, ou teria que suportar uma enorme gozação durante um bom tempo e ainda por cima ser apelidado de “o possante cheiroso”.

sábado, 22 de agosto de 2009

Acima de qualquer suspeita





Chegando ao ponto logo pela manhã, recebo a notícia de que dois companheiros não compareceram no dia e estávamos com muitas chamadas em espera. Então pensei que esse era o meu grande dia. Tinha a chance de fazer muitas corridas boas e arrecadar uma boa grana e até poderia limpar minha barra com a Berenice. Passaria na floricultura do Seu Borges e fazer uma graça levando-a para jantar no restaurante da Dona Mercedes. E depois de saborearmos uma deliciosa pizza de calabresa, seguiríamos para o nosso cafofo e enfim faríamos as pazes, afinal, ninguém é de ferro.
Antes que eu pudesse estacionar corretamente na vaga, a Nelma, a atendente do call Center me direcionou para Ipanema. Endereço desconhecido, mas não foi difícil de achar e tive sorte de pegar um bom trânsito até a rua Joana Angélica, onde eu não fazia idéia, começava eu meu drama. O sujeito era grisalho, ou melhor, bem grisalho e pediu-me para sentar no banco da frente. Eu concedi. Afinal isto é bastante comum em viagens mais rápidas, a não ser pelo fato de que o destino no coroa era Angra dos Reis. O trajeto seria muito bem pago e até que seria bom passear pela paisagem da costa verde carioca. Os assuntos eram de negócios, sempre voltados para fabricação de barcos, iates e veleiros, os quais o sujeito fez questão de contar que possuía. Imaginei que se tratava mesmo de um milionário e tentei descobrir o porquê de não ter ido de helicóptero ou jatinho particular, os quais ele também confessou possuir. Fiquei feliz, porque certamente se tratava de uma pessoa importante e não se queixaria do valor da corrida. Conversamos sobre vinho, assunto sob o qual não domino. Disse que gostava de cerveja alemã e eu respondi que gostava mesmo era da cervejinha gelada lá do bar do Zeca e que jamais havia provado uma de marca estrangeira. E em seguida ele prometeu me dar uma, assim que chegássemos a Angra. Completando que em sua mansão o esperava um amigo do senado brasileiro e que trazia alguns charutos cubanos com ele e até me ofereceu um. Respondi que não fumava, mas que ia aceitar a cerveja, mas apenas uma, pois pretendia pegar a estrada de volta para o Rio assim que possível. Depois de muitas estórias de milionários com altas festas com bebidas e muitas mulheres, eu me acalmei, pois já estava ficando meio preocupado com os papos do velho. Foi quando cruzamos a estrada ao redor usina que eu voltei a assustar-me com o olhar dele para meu colo e minhas coxas. O cara estava ficando esquisito e tive torcicolo repentino para escapar de qualquer eventual investida por parte do estranho coroa. Parei o carro uns trezentos metros depois da entrada da usina, alegando que precisava esticar as pernas e comprei uma água no bar próximo, enfiando a mão no bolso no intuito de pegar o celular e ligar para alguém para avisar sobre o que estava ocorrendo. Por um momento hesitei em fazê-lo, pois não sabia nem como começar a contar as minhas desconfianças, mesmo porque o sujeito não havia feito nada demais até então e tudo podia não passar de uma implicância de minha parte e resolvi voltar para o carro. O cara estava pagando caro pela viajem e merecia no mínimo um bom atendimento. Quando voltei senti um clima estranho dentro do veículo. Ele parecia muito à vontade e apagou o charuto na grama, desculpando-se por tragar o fumo dentro do taxi e eu meio constrangido, deixar passar mais essa. Seguimos viagem por aproximadamente mais meia hora e chegamos, enfim, ao destino do Sr. Aníbal, como ele disse se chamar. Mas, desafortunadamente eu estava com câimbras e aceitei o seu convite para entrar e experimentar a tal cerveja alemã. Usei o banheiro e antes de dirigir-me até a saída o tal homem me puxou pelo braço até o seu escritório e mandou que a empregada trouxesse duas cervejas bem geladas. Disse que eu podia me sentar, mas eu preferi ficar de pé, já que havia ficado sentado no carro durante um bom tempo. Alguns minutos em silencia, a serviçal entrou no recinto com a bandeja e as bebidas, enquanto seu patrão terminava um telefonema. Bebi a cerveja tão rápido que mal pude apreciar o sabor e despedi-me do Sr. Aníbal, mas antes que pudesse me virar para a porta de saída, senti um calafrio na nuca e um toque macio em Cintura. Nem acreditava no que estava acontecendo comigo naquele momento. O sujeito teve a petulância de me tocar e eu repudiando toda aquela repentina aproximação o empurrei para longe e saí. Estiquei o passo até o carro e peguei meu rádio. Avisei a Dona Nelma que estava saindo da roubada que ela havia me metido e que o cliente enviaria o cheque da corrida pelo portador e parti, sumindo na poeira da estrada em alta velocidade, sem deixar rastro ou não responderia por mim, caso aquele coroa pervertido tentasse novamente me assediar.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O falecido

O despertador alarmou estrondosamente alto em meus ouvidos e eu resolvi ficar um pouco mais na cama quentinha antes de encarar a chuva que caía.Tudo parecia diferente naquela manhã e lembrei-me que o Nelson chegaria de viagem no dia seguinte e ainda não havia preparado o empadão de camarão que prometera. Meu marido gostava de comer seu prato preferido toda vez que voltava de Muriaé, a cidade do interior de Minas, onde seus pais residiam. Dona Aurora já não cozinhava mais e os velhinhos dependiam de uma filha que cuidava dela e do seu Ary e essa era a razão pela qual Nelson retornava da visita dos pais extremamente faminto. Pretendia tomar um banho relaxante antes de sair para o trabalho, mas quando peguei uma toalha limpa no armário, mal pude completar o trajeto até o corredor do banheiro, o telefone tocou. Era uma mulher desesperada que mal conseguia respirar entre uma palavra distorcida e outra. Tentei acalmá-la para que conseguisse falar e me fazer compreender, mas ela parecia estar com o coração na boca e comecei a ouvir gritos e muita choradeira do outro lado da linha. Aquilo me deixou muito tensa e não conseguia decifrar o que aquela mulher transtornada precisa me relatar. Devia ser realmente algo muito grave, pois o choro que ouvia ao fundo da ligação estava me assustando e eu só pensava nos meus sogros e também em uma tia minha, irmã de meu pai que residia em Maceió e há anos não ouvia falar dela. Por um momento temi que pudesse ser com Nelson, mas não havia de ser com ele. E a mulher estava ficando cada vez mais nervosa, até que meus sentidos se perderam e minha cabeça rodou. Cessaram as gritarias e eu mais nada ouvia, além do nome de meu marido. Sim, ela conseguiu dizer que havia algo de errado com Nelson, e esse era o nome da pessoa que precisava de ajuda do outro lado da linha. Tinha dificuldades naquele momento para encontrar lápis e papel para anotar o endereço que a tal moça tentava me descrever, mas todas as canetas e todos os papeis resolveram desaparecer e levou alguns minutos até que eu encontrasse um pedaço de jornal velho. E após anotar o endereço que ficava nas proximidades da Lapa, Centro da Cidade, apanhei um taxi na esquina da Avenida Suburbana e segui ao encontro de Nelson que estava em alguma enrascada e eu tentava controlar minha mente que não parava de buscar uma resposta para o fato de Nelson ter retornado de Muriaé antes do combinado e o que fazia na Lapa tão cedo. Eu só não imaginava o que me aguardava. O motorista estava guiando muito devagar e pedi que ele se apressasse, pois meu marido estava em apuros e ele perguntou se estava me levando a alguma delegacia. Eu apenas respondi que não sabia, só possuía nas mãos um endereço até então desconhecido, na Lapa. O trajeto levou cerca de quarenta minutos por conta do trânsito de horário de rush, quando as pessoas estão indo para o trabalho, escola. Veículos e mais veículos seguindo de um lado para o outro, ônibus em demasia e até taxistas excessivamente lotados. Mas meus pensamentos estavam exasperadamente voltados para o Nelson. E me perguntava o que teria acontecido.

A cena era deprimente, patética. Alguns vizinhos com a mão no queixo, outros debruçados em seus muros ou preparando-se para assistir aquele espetáculo que mais parecia uma sessão circense de quinta. E eu doida pra descer o braço naquela magricela com que vestia ridículo micro shorts, agarrado ao seu ganha-pão, as nádegas. A mulher mais velha veio em minha direção e disse que estava em sua residência quando a Dalvirene começou a gritar dentro de casa, acordando toda a vizinhança. O homem não agüentou a pressão. Uma mulher jovem, vinte e cinco anos, muito bonita e fogosa que costumava encontra-se com o homem maduro, meia idade, sempre por pouco tempo. A não ser que de tempos em tempos ele podia ficar quase um mês em sua companhia, quando devia estar em outro Estado zelando por seus velhos e esquecidos pais. E eu ali, servindo de banquete para toda aquela gente curiosa que queria ver de perto a jovem mulher levar uma surra da coroa que viera buscar seu defunto. Marido o qual mentia que estava em Minas Gerais, quando na verdade estava era se deleitando com a amante. Não fosse pela assinatura que era necessária, afinal a cônjuge era eu, pelo menos formalmente. Era anunciado o fim e eu segui para o necrotério, a fim de liberar o atestado de óbito do Nelson, sem saber como dar a notícia para os velhinhos que fazia tempo não via o filho mais novo.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Quando o sol nasceu quadrado - Parte I

Manhã de sexta-feira, sol a pino e eu parado há algumas horas no ponto quando meu supervisor passou-me uma boa corrida. Depois de um dia exaustivo que passei na quarta, finalmente começaria bem o dia e com pé direito, pois a Dona que eu precisava apanhar morava em um bairro nobre do rio de Janeiro, num condomínio de luxo no bairro Itanhangá. Calcei meu trabuco preto e quente por cima da meia, pois sempre que o movimento está baixo retiramos os sapatos a fim de descansar os pés calejados. Engoli o último pedaço da coxinha que comprei no boteco do Seu Jonas e parti em direção ao Alto da Boa Vista. Antes de alcançar a subida já encontrei um tremendo congestionamento por causa de uma batida entre um ônibus e um caminhão de lixo. Dá pra imaginar a fúria que me abateu naquele momento. O rádio me chamava o tempo todo, avisando que a mulher precisava chegar ao Aeroporto ou perderia o vôo e até pensava em cancelar a corrida. Pedi à base que avisasse que eu estava em uma situação difícil, mas faria o possível para chegar mais rápido e pedi para não esquecerem de avisar-me no caso de desistência. Até o momento em que liberaram a pista, nada mais recebi. Nenhum recado o novo contato a respeito. Resolvi contatar a base para confirmar a corrida e disseram-me que estava confirmada, para eu seguir rapidamente e foi o que fiz. Cortei vários veículos lentos, passei em um sinal vermelho, quase atropelei uma velhinha e levei uma baita multa pela alta velocidade. Mas cheguei no endereço solicitado e apenas atrasei-me em vinte e cinco minutos. Percebendo que havia algo de muito estranho no ar, estacionei na porta da residência e ouvi uma partida de motor. Pus a cabeça para fora do meu taxi e avistei uma mulher loura, muito bem arrumada, entrando no carro com um homem ao volante e um empregado que acomodava suas malas no automóvel. Buzinei e alguém resolveu vir até o portão me dar alguma satisfação. O cara simplesmente falou que não precisava mais do taxi, pois a senhora não contava com o atraso e eu expliquei que havia enfrentado um enorme trânsito por conta de um acidente e o rapaz deu de ombros, como se não se importasse. Naquele momento meus nervos ferveram e eu mal conseguia enxergar um palmo à frente. Entrei no carro, dei partida no motor e embiquei na entrada da garagem. Puxei o freio de mão, desliguei o motor e saí do veículo. A mulher também saiu do velho Mitsubishi branco e gritou para que eu saísse da frente ou perderia o avião. Respondi que estava ali para uma corrida e somente sairia com um passageiro para o destino do Aeroporto Internacional Tom Jobim. A mulher irritou-se e bateu a porta com força, causando um barulho que estremeceu o chão e o homem que estava ao volante pegou o celular e parecia ligar para alguém. Minha vontade era ter um tanque no lugar de um carro e derrubar aquele portão para me acertar com ela, mas no fim eu levei a pior. A mulher certamente perdeu seu vôo, mas o que aconteceu comigo foi pior, porque quinze minutos depois de homem dar o telefonema, logo depois da mulher esbravejar e acenar para que eu saísse de seu caminho. Um carro de Polícia chegou ao local, dando-me voz de prisão e eu fui algemado, mas satisfeito de ter me vingado daquela coroa arrogante e esnobe. O duro foi aguentar os gritos da patroa, ao chegar em casa depois da Cooperativa pagar a fiança e o Delegado entregar-me meus pertences.