quarta-feira, 9 de setembro de 2009

"Eu acho que não é aqui não, moço"!







Era uma corrida para Jacarepaguá como qualquer outra. Os passageiros eram uma mulher de meia idade com um menino de aproximadamente nove anos, a quem se referia como neto. Estavam chegando de Recife e era a primeira vez que pisavam no solo carioca e estavam visivelmente encantados com a cidade maravilhosa. Olhavam pela janela do carro e deslumbravam-se com cada estrada e com algumas paisagens, afirmando que jamais havia visto algo parecido. O percurso durou cerca de quarenta e cinco minutos, pois o trânsito estava incrivelmente bom para um dia de sexta-feira e ela parecia bastante empolgada de poder rever sua irmã mais velha, com a qual somente mantinha contato por telefone, desde que viera morar no Rio, há cinco anos. Sua irmã se chamava Cleuza e precisou se mudar para o Rio quando seu marido fora transferido para a filial carioca da empresa em que trabalhava. Disse também que morava num belo apartamento em frente à praia de boa viagem, herança de seu falecido marido, ex-funcionário da Marinha do Brasil. Levava uma vida razoavelmente boa, e uma situação financeira tranquila. O falecido capitão de fragatas, Sr. Adelino, deixara uma boa pensão e com ela ajudava seu único filho, na criação e educação do único neto, Raphael.
Alguns poucos minutos de silêncio e o garoto soltou um barulho esquisito, era o estouro do chiclete que mascava e a senhora o advertiu rapidamente. Voltou a falar de sua irmã, Cleuza e disse que ela havia lhe enviado uma carta onde relatava que morava em uma bela casa de autos e baixos, muito confortável em uma vizinhança razoável e a senhora imaginou que ela estivesse sendo modesta, pois acreditava que sua irmã havia enricado e estaria sim morando em uma bela mansão, a danada.
Mais alguns minutos e peguei a primeira saída da linha amarela e como não conhecia bem a localização descrita, nem mesmo a rua que a passageira informou, resolvi descer em direção ao bairro chamado Pechincha e procurar informação mais adiante. Paramos em um posto de gasolina e o frentista informou que a tal rua ficava um pouco distante Dalí e que deveríamos nos informar mais a frente. Parei ao lado de um jornaleiro que informou que o tal endereço não era próximo do comércio e sim bastante afastado e em uma localização não muito agradável. Seguimos então o conselho do homem e viramos à esquerda a fim de encontrar a via de mão exata para o bairro da Taquara. Lá chegando, mais uma informação aqui e outra ali e nos deparamos com um beco sem saída, mais precisamente uma ruela no pé de uma favela com muitas casas simples. A rua não possuía calçamento e havia um pequeno esgoto que escorria por ela, até encontrar um bueiro por onde desembocava. Imediatamente a mulher afirmou ter certeza de que não estávamos no endereço certo, pois aquele lugar era feio e mal cheiroso e pediu ao neto que pegasse o celular para telefonar para a Cleuza e esclarecer a situação e o menino disse-lhe não ter crédito disponível no telefone e precisariam ligar à cobrar, o que foi em vão, pois a pessoa do outro lado da linha não aceitou a ligação à cobrar e desligou antes que a mesma pudesse completar. Diante daquela constrangedora cena, eu ofereci o meu celular para que ela então pudesse fazer a tal ligação normalmente e ela, um pouco constrangida por não ter crédito, já que afirmou ter uma situação financeira excelente, aceitou minha oferta e discou o número de sua irmã. Uma vizinha atendeu dizendo que o telefone não pertencia a sua parenta e sim era um número para recados. Ela imediatamente correu para chamar a Cleuza, que finalmente deu as dicas para chegarem até o destino. Mas a senhora estava assustada e não queria acreditar no que seus olhos estavam enxergando. Jamais poderia imaginar que sua irmã estivesse em uma situação tão complicada como aquela. A casa que correspondia ao endereço informado era um casebre de dois andares, porém, extremamente humilde e realmente ficava no tal beco em que havíamos entrado. E ela então disse: “moço, pelo amor de Deus, me tira desse lugar, me leva de volta pro aeroporto, eu não posso dormir aqui e não esperava que fosse assim tão ruim, pois minha irmã sempre disse que se tratava de um excelente lugar para viver e definitivamente não estou nem um pouco satisfeita com o que está acontecendo, estou verdadeiramente chocada”.
Então eu lhe pedi que se acalmasse e tentasse primeiro conversar com sua irmã e entrar em um acordo, antes de retornar ao aeroporto e ela aceitou. Desceu do carro, abraçou fortemente a irmã que a aguardava na porta da tal casa ainda em tijolos, sem qualquer pintura e Cleuza a convenceu de entrar e ficar. Nesse momento eu senti um enorme alívio, pois a dona estava mesmo desesperada com toda aquela situação. Retirei as malas do carro e voltei para o centro da cidade, imaginando como ela teria se entendido com a irmã após aquele equivocado episódio.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Respeito é bom e eu gosto






Estávamos num papo interessante sobre futebol, para variar, quando recebi um chamado do quiosque o aeroporto Tom Jobim, antigo Galeão. Passava das onze da manhã e o sol derretia-me os sapatos. Entrei no carro e segui para lá e com o trânsito fluindo bem, em poucos minutos eu estava lá para atender ao chamado urgente. Para minha surpresa tratava-se de um ator muito famoso, preferido da mulherada, mas que por questões de ética e processo judicial, prefiro não divulgar tal nome. Entrou no carro e sentou-se atrás do banco do motorista e uma mulher que julgo ser sua assessora sentou-se ao seu lado. Na frente um senhor de meia idade, que pela conversa entre os três era advogado do tal artista e estavam retornando de uma audiência em São Paulo. Também não sei do que se tratava o tal processo, pois eles não entraram em detalhes a respeito e eu não sou o tipo do taxista que fica prestando atenção em demasia no que os passageiros conversam, é deseducado, anti-profissional e não faz o meu tipo.
O fato é que tive que perguntar por duas vezes qual era o destino, até que a mulher se prontificou a responder-me, pedindo que eu seguisse adiante e aguardasse novas instruções. Ela voltou-se ao ilustre artista de televisão, bastante conhecido nas novelas e questionou-o se deveriam passar no centro da cidade antes de seguirem para o bairro da Urca. E o soberbo do homem pediu-lhe que avisasse ao senhor motorista que iria direto para casa, não dirigindo qualquer palavra direta a quem lhe conduzia ao seu destino.
O sujeito podia ser bonitão, famoso, rico e até talentoso, mas o que eu não entendia era o porquê de tanta falta de educação de sua parte em demonstrar tanta antipatia por minha pessoa, já que nem o conhecia, a não ser pela televisão, onde ele aparece produzido e em falas extremamente educadas, bastante diferente do cara que estava sentado no banco traseiro do meu taxi. E está muito longe de ser.
A mulher novamente advertiu-o da necessidade de passarem no centro e ele lhe deu um corte, dando a entender que seria melhor conversar sobre tais assuntos em casa.

Um ambiente hostil pairava dentro do veículo durante todo o percurso e eu sentia vontade de chegar logo onde pretendiam descer para me ver livre de tanta soberba e indiferença que aquele sujeito transmitia. Jamais poderia imaginar que aquele cara fosse tão hostil e esnobe. Mal podia esperar para chegar em casa e contar para a Dilma, minha mulher. Ela ficaria de queixo caído e talvez nem acreditasse nesse episódio.
Chegamos na altura de botafogo e entramos para o acesso à Urca e Praia Vermelha, quando o sujeito virou-se para a mulher e pediu-lhe que avisasse ao motorista, como se eu estivesse a léguas de distância dele, que eu permanecesse à esquerda, próximo após o Instituto Benjamim Constant, pois precisava comprar jornais e a tal mulher balançou a cabeça afirmativamente e antes que pudesse repetir toda a frase dita pelo tal ator, eu adiantei-me e disse-lhe: “...senhorita, por favor, avise ao senhor aí atrás que nem que ele fosse o papa eu pararia na esquerda para não ficar sujeito a uma multa de trânsito e que se ele fosse um pouco menos deseducado, eu até retornaria ao jornaleiro, que aliás se chama Valdomiro e por acaso é muito meu amigo, e compraria o tal jornal, mas infelizmente, tudo era bem diferente e por gentileza, procurem descer com certa agilidade quando chegarmos ao destino, pois tenho que retornar ao ponto rapidamente para atender a um outro cliente, esse para Duque de Caxias, lugar onde eu como o melhor angu à baiana que já provei em toda a minha vida”.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

O susto


Para uma tarde de terça-feira, até que o movimento não estava ruim. Por volta do horário do almoço peguei uma corrida para as paineiras, um grupo de quatro turistas e às duas já estava apanhando um casal de turistas de Goiás na porta do Copacabana Palace. Conversavam pouco, mas pude entender que eram de pessoas inteligentes e felizes. Fazendeiros do interior de Goiânia que visitavam o Rio pela primeira vez a convite de um amigo que morava no Rio. Pretendiam visitar o Cristo e depois o pão de açúcar, tirar boas fotografias e mostrá-las a uma tal de Elô, que tinha pavor de vir para o Rio, por conta dos noticiários de violência da cidade maravilhosa. O primeiro passeio foi tranquilo, a não ser pelo calor que sentiam e a quantidade de água que necessitavam ingerir com frequência, me obrigando a parar para que pudessem se abastecer. Bastante compreensível, afinal, o sol estava escaldante para um mês não tão quente como costuma ser o mês de maio, aqui no Rio. Descemos do cristo e passando pelo bairro de Santa Tereza eles ficaram maravilhados e decidiram parar para um café num bar logo na descida. Tiraram mais algumas fotos e partimos para Uca, onde deviam embarcar no famoso bondinho de acesso ao pão de açúcar, O famoso ponto turístico. Perguntaram-me educadamente se eu não gostaria de acompanhá-los, mas eu não aceitei e coloquei-me à disposição para guardá-los no carro. Algum tempo depois, talvez horas, eles retornaram completamente maravilhados e com as maçãs do rosto bastante rosadas e pediram-me que os levasse de volta para o hotel. Estavam aparentemente exaustos e tiraram os calçados dos pés para descansá-los. Fizeram um comentário positivo a respeito da cidade, pois até agora não havia sentido qualquer hostilidade ou ameaça de violência como noticiam as emissoras de TV e estavam realmente surpresos com ao Rio, a não ser pelo fato de que em poucos minutos mudariam de idéia com o maior susto de suas vidas. Era uma gritaria, na altura da Rua Princesa Isabel, gritos e discussões, alguém terrivelmente transtornado parecia obrigar-nos a parar e entregar tudo, mas tentava abaixar-me para procurar algo no fundo do carro. Talvez estivesse procurando algo, uma arma e a tensão só aumentava. O casal entreolhava-se e arregalavam os olhos, abaixavam-se e perguntavam o que estava acontecendo e com muito medo e pavor transpiravam e tremiam e eu não conseguia explicar ou pedir para que ficassem calmos, pois tudo estava sob controle. A mulher forçou a maçaneta da porta traseira e abriu com toda a força que tinha, colocando os bofes e todo o almoço para fora, coitada, estava extremamente nervosa com toda aquela situação e finalmente consegui alcançar o dito cujo. Foi questão de segundos, eu acho, mas parecia uma eternidade. Estava tocando sem parar e lembrei-me que precisava trocar o toque do meu celular e diante daquela terrível cena eu disse: "calma Dona, é só o toque do meu telefone. Um amigo me enviou na brincadeira e eu baixei, mas fica tranquila que assim que der pra estacionar eu troco..." e pensei: “Maldita a hora que eu resolvi salvar o tal toque, eles podiam ter aberto a porta do carro e se jogado de tanto desespero.”

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

No banco de traz





Era tarde de sábado e eu já me preparava para ir para casa, afinal, havia trabalhado duro durante toda a semana e precisava de um descanso, como qualquer filho de Deus. Com o calor que fazia no mês de novembro nessa cidade maravilhosa, parei na esquina da sorveteria do seu Heitor e comprei uma big taça de sorvete de flocos com calda de chocolate, o meu preferido. Saboreei com toda a felicidade de uma criança quando saboreia o seu doce predileto. Paguei pela refrescante taça e pedi uma água para cortar um pouco do açúcar ingerido e retornei ao carro, que havia deixado com os vidros abertos, devido ao calor extremo, estacionado há uns cinco metros da sorveteria. Ao aproximar-me de veículo, percebi que havia algo de estranho por perto, a começar pelo mau cheiro que pairava perto da porta do taxi e também pelo vidro da porta traseira, que eu não me recordava e ter aberto. Comecei a ficar preocupado e a cada passo que eu dava, olhava ao redor para certificar-me de que não se tratava de alguma brincadeira, pegadinha, ou coisa parecida. Ainda um pouco afastado, estiquei o olhar para dentro do veículo, a procura de algum rastro ou quem sabe algum animal que pudesse ter pulado pela janela. Mais um passo e minha nossa! Surpreendi-me com aquela estranha cena. Jamais teria acreditado se não tivesse visto com meus próprios olhos. E cheguei a duvidar do que acabava de presenciar. Um homem estranho, na verdade um morador de rua. Um mendigo. Sei lá. Sei apenas que naquele momento eu me assustei com aquela cena, que até poderia se cômica, se não fosse trágica. E já começava a ouvir meus companheiros lá do ponto, tirando o maior sarro da minha cara, quando vissem um cliente entrando no meu taxi, torcendo ou abanando o nariz, como quem quer insinuar um fétido odor. E pus-me a procurar por um guarda que pudesse me auxiliar na retirada de tal mendigo de dentro do meu carro, mas a tentativa foi em vão. Logo num sábado à tarde, seria a coisa mais difícil do mundo encontrar ajuda de um policial, pelo menos naquela circunstância que, no mínimo era ridícula. Não havia o que fazer, senão começar a acordar o tal sujeito que dormia no banco traseiro e comecei a tarefa de acordá-lo. Tentativa essa inútil. O cara sequer mexia as pálpebras e estava abraçado com uma garrafa de cachaça. Pensei em abrir a porta de trás e tentar retirá-lo, mas não sabia se aguentaria o cheiro do dorminhoco, que além de falta de banho, misturava-se a um forte cheiro de cachaça e comecei a ter colapso mental só de pensar em como eu faria para sumir com aquele cheiro de dentro do carro, a tempo de voltar ao trabalho sem que os passageiros notassem o tal infortúnio. Sorte a minha, pois enquanto eu me encorajava para interromper seu descanso cheiroso, o cara abriu a porta do carro e, do nada, saiu disparado dando algumas goladas em sua inseparável bebida, o qual não desgrudou sequer por um segundo. Melhor assim, mas eu que não me atreveria a comentar aquele lamentável incidente com a galera lá da cooperativa, ou teria que suportar uma enorme gozação durante um bom tempo e ainda por cima ser apelidado de “o possante cheiroso”.

sábado, 22 de agosto de 2009

Acima de qualquer suspeita





Chegando ao ponto logo pela manhã, recebo a notícia de que dois companheiros não compareceram no dia e estávamos com muitas chamadas em espera. Então pensei que esse era o meu grande dia. Tinha a chance de fazer muitas corridas boas e arrecadar uma boa grana e até poderia limpar minha barra com a Berenice. Passaria na floricultura do Seu Borges e fazer uma graça levando-a para jantar no restaurante da Dona Mercedes. E depois de saborearmos uma deliciosa pizza de calabresa, seguiríamos para o nosso cafofo e enfim faríamos as pazes, afinal, ninguém é de ferro.
Antes que eu pudesse estacionar corretamente na vaga, a Nelma, a atendente do call Center me direcionou para Ipanema. Endereço desconhecido, mas não foi difícil de achar e tive sorte de pegar um bom trânsito até a rua Joana Angélica, onde eu não fazia idéia, começava eu meu drama. O sujeito era grisalho, ou melhor, bem grisalho e pediu-me para sentar no banco da frente. Eu concedi. Afinal isto é bastante comum em viagens mais rápidas, a não ser pelo fato de que o destino no coroa era Angra dos Reis. O trajeto seria muito bem pago e até que seria bom passear pela paisagem da costa verde carioca. Os assuntos eram de negócios, sempre voltados para fabricação de barcos, iates e veleiros, os quais o sujeito fez questão de contar que possuía. Imaginei que se tratava mesmo de um milionário e tentei descobrir o porquê de não ter ido de helicóptero ou jatinho particular, os quais ele também confessou possuir. Fiquei feliz, porque certamente se tratava de uma pessoa importante e não se queixaria do valor da corrida. Conversamos sobre vinho, assunto sob o qual não domino. Disse que gostava de cerveja alemã e eu respondi que gostava mesmo era da cervejinha gelada lá do bar do Zeca e que jamais havia provado uma de marca estrangeira. E em seguida ele prometeu me dar uma, assim que chegássemos a Angra. Completando que em sua mansão o esperava um amigo do senado brasileiro e que trazia alguns charutos cubanos com ele e até me ofereceu um. Respondi que não fumava, mas que ia aceitar a cerveja, mas apenas uma, pois pretendia pegar a estrada de volta para o Rio assim que possível. Depois de muitas estórias de milionários com altas festas com bebidas e muitas mulheres, eu me acalmei, pois já estava ficando meio preocupado com os papos do velho. Foi quando cruzamos a estrada ao redor usina que eu voltei a assustar-me com o olhar dele para meu colo e minhas coxas. O cara estava ficando esquisito e tive torcicolo repentino para escapar de qualquer eventual investida por parte do estranho coroa. Parei o carro uns trezentos metros depois da entrada da usina, alegando que precisava esticar as pernas e comprei uma água no bar próximo, enfiando a mão no bolso no intuito de pegar o celular e ligar para alguém para avisar sobre o que estava ocorrendo. Por um momento hesitei em fazê-lo, pois não sabia nem como começar a contar as minhas desconfianças, mesmo porque o sujeito não havia feito nada demais até então e tudo podia não passar de uma implicância de minha parte e resolvi voltar para o carro. O cara estava pagando caro pela viajem e merecia no mínimo um bom atendimento. Quando voltei senti um clima estranho dentro do veículo. Ele parecia muito à vontade e apagou o charuto na grama, desculpando-se por tragar o fumo dentro do taxi e eu meio constrangido, deixar passar mais essa. Seguimos viagem por aproximadamente mais meia hora e chegamos, enfim, ao destino do Sr. Aníbal, como ele disse se chamar. Mas, desafortunadamente eu estava com câimbras e aceitei o seu convite para entrar e experimentar a tal cerveja alemã. Usei o banheiro e antes de dirigir-me até a saída o tal homem me puxou pelo braço até o seu escritório e mandou que a empregada trouxesse duas cervejas bem geladas. Disse que eu podia me sentar, mas eu preferi ficar de pé, já que havia ficado sentado no carro durante um bom tempo. Alguns minutos em silencia, a serviçal entrou no recinto com a bandeja e as bebidas, enquanto seu patrão terminava um telefonema. Bebi a cerveja tão rápido que mal pude apreciar o sabor e despedi-me do Sr. Aníbal, mas antes que pudesse me virar para a porta de saída, senti um calafrio na nuca e um toque macio em Cintura. Nem acreditava no que estava acontecendo comigo naquele momento. O sujeito teve a petulância de me tocar e eu repudiando toda aquela repentina aproximação o empurrei para longe e saí. Estiquei o passo até o carro e peguei meu rádio. Avisei a Dona Nelma que estava saindo da roubada que ela havia me metido e que o cliente enviaria o cheque da corrida pelo portador e parti, sumindo na poeira da estrada em alta velocidade, sem deixar rastro ou não responderia por mim, caso aquele coroa pervertido tentasse novamente me assediar.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O falecido

O despertador alarmou estrondosamente alto em meus ouvidos e eu resolvi ficar um pouco mais na cama quentinha antes de encarar a chuva que caía.Tudo parecia diferente naquela manhã e lembrei-me que o Nelson chegaria de viagem no dia seguinte e ainda não havia preparado o empadão de camarão que prometera. Meu marido gostava de comer seu prato preferido toda vez que voltava de Muriaé, a cidade do interior de Minas, onde seus pais residiam. Dona Aurora já não cozinhava mais e os velhinhos dependiam de uma filha que cuidava dela e do seu Ary e essa era a razão pela qual Nelson retornava da visita dos pais extremamente faminto. Pretendia tomar um banho relaxante antes de sair para o trabalho, mas quando peguei uma toalha limpa no armário, mal pude completar o trajeto até o corredor do banheiro, o telefone tocou. Era uma mulher desesperada que mal conseguia respirar entre uma palavra distorcida e outra. Tentei acalmá-la para que conseguisse falar e me fazer compreender, mas ela parecia estar com o coração na boca e comecei a ouvir gritos e muita choradeira do outro lado da linha. Aquilo me deixou muito tensa e não conseguia decifrar o que aquela mulher transtornada precisa me relatar. Devia ser realmente algo muito grave, pois o choro que ouvia ao fundo da ligação estava me assustando e eu só pensava nos meus sogros e também em uma tia minha, irmã de meu pai que residia em Maceió e há anos não ouvia falar dela. Por um momento temi que pudesse ser com Nelson, mas não havia de ser com ele. E a mulher estava ficando cada vez mais nervosa, até que meus sentidos se perderam e minha cabeça rodou. Cessaram as gritarias e eu mais nada ouvia, além do nome de meu marido. Sim, ela conseguiu dizer que havia algo de errado com Nelson, e esse era o nome da pessoa que precisava de ajuda do outro lado da linha. Tinha dificuldades naquele momento para encontrar lápis e papel para anotar o endereço que a tal moça tentava me descrever, mas todas as canetas e todos os papeis resolveram desaparecer e levou alguns minutos até que eu encontrasse um pedaço de jornal velho. E após anotar o endereço que ficava nas proximidades da Lapa, Centro da Cidade, apanhei um taxi na esquina da Avenida Suburbana e segui ao encontro de Nelson que estava em alguma enrascada e eu tentava controlar minha mente que não parava de buscar uma resposta para o fato de Nelson ter retornado de Muriaé antes do combinado e o que fazia na Lapa tão cedo. Eu só não imaginava o que me aguardava. O motorista estava guiando muito devagar e pedi que ele se apressasse, pois meu marido estava em apuros e ele perguntou se estava me levando a alguma delegacia. Eu apenas respondi que não sabia, só possuía nas mãos um endereço até então desconhecido, na Lapa. O trajeto levou cerca de quarenta minutos por conta do trânsito de horário de rush, quando as pessoas estão indo para o trabalho, escola. Veículos e mais veículos seguindo de um lado para o outro, ônibus em demasia e até taxistas excessivamente lotados. Mas meus pensamentos estavam exasperadamente voltados para o Nelson. E me perguntava o que teria acontecido.

A cena era deprimente, patética. Alguns vizinhos com a mão no queixo, outros debruçados em seus muros ou preparando-se para assistir aquele espetáculo que mais parecia uma sessão circense de quinta. E eu doida pra descer o braço naquela magricela com que vestia ridículo micro shorts, agarrado ao seu ganha-pão, as nádegas. A mulher mais velha veio em minha direção e disse que estava em sua residência quando a Dalvirene começou a gritar dentro de casa, acordando toda a vizinhança. O homem não agüentou a pressão. Uma mulher jovem, vinte e cinco anos, muito bonita e fogosa que costumava encontra-se com o homem maduro, meia idade, sempre por pouco tempo. A não ser que de tempos em tempos ele podia ficar quase um mês em sua companhia, quando devia estar em outro Estado zelando por seus velhos e esquecidos pais. E eu ali, servindo de banquete para toda aquela gente curiosa que queria ver de perto a jovem mulher levar uma surra da coroa que viera buscar seu defunto. Marido o qual mentia que estava em Minas Gerais, quando na verdade estava era se deleitando com a amante. Não fosse pela assinatura que era necessária, afinal a cônjuge era eu, pelo menos formalmente. Era anunciado o fim e eu segui para o necrotério, a fim de liberar o atestado de óbito do Nelson, sem saber como dar a notícia para os velhinhos que fazia tempo não via o filho mais novo.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Quando o sol nasceu quadrado - Parte I

Manhã de sexta-feira, sol a pino e eu parado há algumas horas no ponto quando meu supervisor passou-me uma boa corrida. Depois de um dia exaustivo que passei na quarta, finalmente começaria bem o dia e com pé direito, pois a Dona que eu precisava apanhar morava em um bairro nobre do rio de Janeiro, num condomínio de luxo no bairro Itanhangá. Calcei meu trabuco preto e quente por cima da meia, pois sempre que o movimento está baixo retiramos os sapatos a fim de descansar os pés calejados. Engoli o último pedaço da coxinha que comprei no boteco do Seu Jonas e parti em direção ao Alto da Boa Vista. Antes de alcançar a subida já encontrei um tremendo congestionamento por causa de uma batida entre um ônibus e um caminhão de lixo. Dá pra imaginar a fúria que me abateu naquele momento. O rádio me chamava o tempo todo, avisando que a mulher precisava chegar ao Aeroporto ou perderia o vôo e até pensava em cancelar a corrida. Pedi à base que avisasse que eu estava em uma situação difícil, mas faria o possível para chegar mais rápido e pedi para não esquecerem de avisar-me no caso de desistência. Até o momento em que liberaram a pista, nada mais recebi. Nenhum recado o novo contato a respeito. Resolvi contatar a base para confirmar a corrida e disseram-me que estava confirmada, para eu seguir rapidamente e foi o que fiz. Cortei vários veículos lentos, passei em um sinal vermelho, quase atropelei uma velhinha e levei uma baita multa pela alta velocidade. Mas cheguei no endereço solicitado e apenas atrasei-me em vinte e cinco minutos. Percebendo que havia algo de muito estranho no ar, estacionei na porta da residência e ouvi uma partida de motor. Pus a cabeça para fora do meu taxi e avistei uma mulher loura, muito bem arrumada, entrando no carro com um homem ao volante e um empregado que acomodava suas malas no automóvel. Buzinei e alguém resolveu vir até o portão me dar alguma satisfação. O cara simplesmente falou que não precisava mais do taxi, pois a senhora não contava com o atraso e eu expliquei que havia enfrentado um enorme trânsito por conta de um acidente e o rapaz deu de ombros, como se não se importasse. Naquele momento meus nervos ferveram e eu mal conseguia enxergar um palmo à frente. Entrei no carro, dei partida no motor e embiquei na entrada da garagem. Puxei o freio de mão, desliguei o motor e saí do veículo. A mulher também saiu do velho Mitsubishi branco e gritou para que eu saísse da frente ou perderia o avião. Respondi que estava ali para uma corrida e somente sairia com um passageiro para o destino do Aeroporto Internacional Tom Jobim. A mulher irritou-se e bateu a porta com força, causando um barulho que estremeceu o chão e o homem que estava ao volante pegou o celular e parecia ligar para alguém. Minha vontade era ter um tanque no lugar de um carro e derrubar aquele portão para me acertar com ela, mas no fim eu levei a pior. A mulher certamente perdeu seu vôo, mas o que aconteceu comigo foi pior, porque quinze minutos depois de homem dar o telefonema, logo depois da mulher esbravejar e acenar para que eu saísse de seu caminho. Um carro de Polícia chegou ao local, dando-me voz de prisão e eu fui algemado, mas satisfeito de ter me vingado daquela coroa arrogante e esnobe. O duro foi aguentar os gritos da patroa, ao chegar em casa depois da Cooperativa pagar a fiança e o Delegado entregar-me meus pertences.